A música virtual têm dois tipos de artistas em seu portfólio: aqueles que montam uma imensa divulgação para seus trabalhos, estão sempre ativos e presentes em todos os eventos e festivais que acontecem durante o ano; e aqueles que ainda não têm um rumo do que seguir na carreira e acabam embaralhando algo que poderia ser um grande sucesso se fosse melhor organizado. Até pouco tempo atrás, Helena integrava a segunda categoria.
Acontece que, em maio de 2015, a cantora lançou seu promissor EP de estreia, "Corpo", formado por 5 músicas altamente pessoais e com um nível tão alto quanto. Helena foi bem recebida pelo público e pela crítica, seu EP foi muito bem elogiado por diversos pólos do mundo virtual e até um videoclipe estava sendo produzido para o que seria o único single do disco. Porém, todos esses projetos foram descartados quando a cantora decidiu que não queria mais seguir carreira.
Corpo foi deletado de todas as plataformas em que se encontrava disponível para audição e nunca mais se soube nada de Helena, e como era de se esperar, o hype colocado em cima da artista foi todo por água a baixo em cerca de meses. Mas, se você já ouviu o ditado "O bom filho a casa torna" tinha certeza de que essa aposentadoria não duraria tanto tempo.
Em janeiro desse ano, a hitmaker de "Cidade Fantasma" voltou atrás em sua decisão e lançou o single "Calor" como carro-chefe do seu primeiro long play, e, dessa vez, se mostrou realmente disposta a fazer essa era dar certo. Concedendo entrevistas, performando em premiações e divulgando teasers de um videoclipe que nunca viu e nem verá a luz do sol, foi assim que Helena montou a divulgação do disco "Sunset" para que tudo estivesse nos trilhos quando o álbum chegasse até nossos ouvidos, o que aconteceu cerca de 1 mês depois do seu retorno.
Sunset trouxe consigo uma sonoridade mais tropical do que estávamos acostumados e veio integrado de dez faixas conectadas por um mix non-stop, feito de forma que poucos conseguiram executar com êxito. Mas, será que todo esse trabalho conseguiu levantar o hype deixado de lado com o abandono do EP "Corpo"?
***
01. Sunset
Com barulhos das ondas do mar ao fundo, a faixa título abre o disco. Sunset apresenta a sonoridade tropical, que ficará presente durante todo o disco, de forma contagiante e com uma produção a nível do que já estávamos acostumados a receber de Helena. Outro ponto positivo da faixa é a sua composição, que funciona como uma transição da era "Corpo" para esta, algo que fica bem claro no refrão quando Helena diz que a praia a ajuda a mascarar todas as mágoas do passado por um tempo, mas, que ainda sim, sabe que ela não será o suficiente para levá-las embora. "O sol cobre a minha tristeza, a areia cobre o meu desprezo, a brisa leva o meu mal estar enquanto a água tira esse peso. Mas, nada dura para sempre, assim como os relacionamentos meus. Quando o sol se for, será a hora do meu último adeus."
02. Calor
As mesmas ondas do mar que escutamos no início da primeira faixa servem como transição para dar início a esta. Calor foi o primeiro contato que o público teve com o disco, ainda em janeiro desse ano. Nesta faixa, Helena expressa seu amor platônico por alguém através de uma letra viciante com poucos toques de obsessão. Com uma instrumental marcante e a produção super bem elaborada, é um dos pontos fortes do disco. "Eu não sei mais o que eu faço para conter esse meu calor. Toda vez que você se aproxima, minha genitália entra em fervor."
03. Reflexo Aquático
A transição de Calor para Reflexo Aquático é feita por vozes ao fundo, indicando uma praia lotada por pessoas, mas ao longo da canção fica nítido que Helena não está confortável sendo rodeada por elas. Durante a faixa, Helena questiona a si mesma, enquanto se olha através de um reflexo formado pela água do mar, criticando as atitudes de se importar com pessoas e coisas que não compactuavam com o tipo de vida que ela segue e revela que só se encontrou em paz quando entrou em contato com a natureza, no lugar das pessoas já citadas. "É que eu sou meio assim, sonhadora e ambiciosa, e agora estou conseguindo mudar minha personalidade ociosa."
04. Último Verão
Ao ouvir o início de Último Verão, engana-se quem pensa que será mais uma faixa melancólica, dando ênfase à Reflexo Aquático. Na verdade, é a primeira faixa house do disco. Com rimas viciantes e uma produção super bem feita, a faixa te conquista logo nos primeiros segundos. Na letra, Helena fala, pela primeira vez, para o cara que a decepcionou que ele não é tão importante quanto considera ser. Apontando seus erros do passado, ela diz que, em meio a um visual tão lindo de uma praia cheia no verão, não se importa se ele montar sua caveira para o resto do mundo. "Mar, sol, praia e tentação. Eu não atendi a sua ligação. Todos nós estamos cientes do que você fez no último verão."
05. Drama (Get High)
E chegamos ao ponto mais alto do disco. Drama mescla as duas sonoridades principais do disco em apenas um único hino. Com uma produção esplêndida e uma letra, que apesar de não ter muitas rimas, prende facilmente na sua cabeça, não tinha como esta não ser a canção mais amada do disco. Nesta faixa, Helena faz uma crítica a todas as pessoas que criam "dramas artificiais" para chamarem atenção de alguma forma, mas, realça que quando ela resolve usufruir da mesma técnica é altamente criticada. "Vida em Marte ou vida em Vênus, nós estamos enlouquecidas. O drama dominou o nosso contato, o drama dominou as nossas vidas."
06. Traffic Jam (ft. Tanusha)
A transição para esta faixa se dá com o som de um rádio e várias buzinas de carros num engarrafamento, que é onde a história dessa canção é contada. Helena está voltando de um belo dia na praia, mas as memórias do passado a atormentam e desestabilizam algo que já parecia ter sido superado. Presa no engarrafamento, ela questiona o fato de ter colocado tanta fé em uma pessoa que não retribuiu às suas expectativas. A voz de Tanusha na canção só torna tudo mais suave e relaxante aos ouvidos. "E no ritmo do barulho do relógio, eu prometi te dar o meu coração. Mas, não se esqueça, meu bem, nós estamos em horário de verão."
07. Areia Molhada (ft. Gabi)
Helena já está em casa, tomando uma ducha para tirar a areia do seu corpo, como indica a transição de Traffic Jam para cá. Nesta faixa, Helena, junto de Gabi, expressa sua indignação relacionada a pessoas que vivem aos moldes de uma vida fácil e obtém sucesso, enquanto ela rala para atingir seus objetivos e demora o dobro do tempo para receber o mérito. A sonoridade e a produção novamente acertam em cheio, e a participação de Gabi apenas torna algo que já seria bom em algo melhor. "Pois um castelo de areia molhada é fácil de se construir, dirigir através de uma só estrada é fácil de se dirigir, viver as custas de outras experiências é fácil de se viver, na hora de arcar com as consequências é fácil querer morrer."
08. Mia Wallace
Depois de um dia cheio de emoções, Helena se joga numa depressão absoluta questionando tudo e todos enquanto fuma de uma erva preciosíssima. Com uma vibe mais obscura do que o resto das canções e uma composição confusa, Mia Wallace acerta em cheio no sentido de fazer o ouvinte viajar enquanto a ouve, e a voz de Helena na faixa aparenta estar mais lenta, para cumprir com o objetivo. Ótima tática, boa execução. "Sentidos arrancados fio a fio, dance comigo, porque hoje estou a mil."
09. Subconsciente
Sob efeito das drogas utilizadas na canção anterior, o subconsciente de Helena toma conta de todo o seu corpo e desmente tudo o que foi cantado durante todo o álbum, afirmando que todas as alegrias cantadas durante o disco não passam de mentiras. Curtamente espetacular, Subconsciente é uma interlude realmente necessária para enfatizar a transição do disco, de faixas felizes e animadas, para canções mais sinceras que vêm logo após. "Secretamente disfarçada, maldita alegria que tomei. Minha vida não é tão perfeita, vocês não sabem nem o começo."
10. Aloha
Aloha, com certeza, é a faixa mais sincera do disco e tem uma das melhores letras do mesmo. O verão está acabando e Helena terá que voltar a sua vida normal, porém, desta vez, com o ônus de ter que amadurecer. Sem saber qual rumo seguir, ela pede ajuda para dar os primeiros passos dessa nova jornada da sua vida nesse mundo tão cruel em que vivemos. É incrível como essa faixa realmente simboliza algo que não só aconteceu com Helena, mas com todos nós que já passamos por uma fase de amadurecimento, principalmente ao deixar o ensino médio e partir para o mundo dos negócios, que cada vez se mostra menos receptivo. A instrumental e a letra casam perfeitamente uma com a outra e a produção é só a cereja do bolo. "Então não me deixe sozinho, pelo menos nesse verão. Me ensine como posso partir deixando um pedaço de meu coração. Então não deixe a luz ligada, pois eu não quero olhar o meu rosto, me diga como posso agir quando a vergonha toma o seu posto."
***
Helena sempre foi um nome a qual depositamos imensas expectativas, e ela nunca nos decepcionou sobre elas. "Sunset" foi um álbum feito com o objetivo de ser animado e descontraído, mas acabou nos dizendo mais sobre a verdadeira Helena do que seu EP de estreia. Mesclando faixas animadas com temas profundos e sinceros, o disco não se torna chato em nenhum dos seus trinta e sete minutos, e realmente mostra o quanto Helena se esforçou para fazê-lo dar certo.
Tudo nessa era foi bem pensado para que o álbum recebesse todo o mérito que merece, os singles, as entrevistas, as performances, a época de lançamento condizente com a sonoridade do material, tudo. E quando se ouve o disco e percebe que faixas como "Calor" e "Mia Wallace" conseguiram ficar coesas juntos de um mesmo material, percebe-se que o resultado não podia ser diferente. "Sunset" consegue agradar perfeitamente a todas as massas, desde os conceituais àqueles que curtem uma bela e bem produzida farofa.

